BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO – WEBER
Valéria Taveira[1]
Em
sua ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber aponta as nuances
e as principais contribuições deixadas pelo protestantismo na seara do
capitalismo. O “espírito” do capitalismo como conduta de vida.
A
força mais significativa de nossa vida moderna: o capitalismo. O “impulso para
a aquisição”, a “ânsia do lucro”, o “quanto mais dinheiro melhor” não tem nada
a ver em si com o capitalismo. Esse impulso existiu e existem entre garçons,
médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários corruptos, soldados,
nobres – ou seja, em todo tipo de gente e classe social (WEBER, p.9).
É
essa ânsia por resultados, por melhores condições de produção, de competição
que fazem com que a economia seja a principal beneficiária do jogo entre
mercados, proletariados e a busca por mecanismos de controle social. O que nos
leva a buscar a perfeição da técnica mediante tantos obstáculos e adversidades?
Quais os frutos do conhecimento? O que ganhamos em persegui-lo?
Weber, através de sua sociologia da religião
fornece uma análise filosófica sobre o capitalismo desfocado da perspectiva
puramente econômica. Dito de outro modo, o filósofo alemão atribui ao campo
religioso elementos amparados no capital.Independentemente da classe econômica,
todos asseiam o acúmulo de riquezas. A própria igreja, sob a perspectiva da
teoria da prosperidade[2]
acaba por influenciar fieis a realizarem doações vultosas em prol dos dons de
Deus.[3]
A
mera expectativa do lucro é o motor humano. Isso porque, conforme já dizia Adam
Smith em sua riqueza das nações “não é a boa-fé do padeiro que o leva a acordar
de madrugada para assar seu pão e vendê-lo de manhazinha aos seus clientes que
justifica a ação capitalista, mas, a ânsia, a busca por acúmulo de lucro que
move sua conduta”. Nesse jogo de senhorio de fatores de produção (trabalho,
insumo, proletariado) ambas as partes dessa relação buscam tão somente o lucro,
ainda que não pacificado.
As
formas pelas quais o homem vem se adaptando as regras do mercado e a
manipulação do capital em detrimento do lucro revela aspectos sistêmicos de sua
conduta calculadamente planejada, de modo que, ao término de um dado calendário
financeiro, balanço de seus cálculos seja positivo. É nessa seara que se
considera o papel do católico e do protestante porque segundo Weber ambos detém
da mesma capacidade intelectual para contabilização de seus lucros.
Mas,
o modo de agir diferencia-se brutalmente quando se compara católicos e
protestantes, isso se dá porque ambos se relacionam com o divino de maneira
distinta, ocasionando inclusive, mudanças de comportamento econômico, por
exemplo. Nesse sentido, não se pode negar a peculiar influência da igreja ou orientação
religiosa na escolha da profissão do fiel.
É
que a menor participação dos católicos na moderna vida mercantil da Alemanha é
tanto mais notável, pois vai de encontro a uma tendência que tem sido observada
em todos os tempos. As minorias nacionais ou religiosas, que estão numa posição
de subordinação par com um grupo de governantes. Seus membros mais capazes
anseiam por ver reconhecidas as suas habilidades. [...] Os católicos da
Alemanha nada apresentaram nesse sentido, e no passado não tiveram, ao
contrario dos protestantes da Holanda ou da Inglaterra, um desenvolvimento
econômico de importância numa época em que foram perseguidos ou apenas
tolerados.
Por
sua vez, há o fato de os protestantes, como classe dirigente e como classe
dirigida, seja para maioria ou minoria, terem demonstrado uma tendência
específica para o racionalismo econômico, que não pode ser observado entre os
católicos em qualquer dessas situações.
O
homem é dominado por fazer dinheiro, pela aquisição encarada como finalidade
última da sua vida. A aquisição econômica não mais está subordinada ao homem como
meio de satisfazer suas necessidades materiais. [...] Assim, o capitalismo
atual, que passou a dominar avida econômica, educa e escolhe os indivíduos de
que tiver necessidade por um processo de sobrevivência econômica do mais apto
(WEBER, p.28).
Também
o sistema capitalista necessita dessa ‘vocação’ para ganhar dinheiro, pois ela
configura uma atitude para com os bens materiais que está tão intimamente
adaptada a este sistema, tão intimamente ligada às condições de sobrevivência
na luta econômica pela existência (WEBER, p.38)”.
A
usura como algo perigoso para a salvação, uma obediência cega a igreja era uma
garantia a salvação. [...]o trabalho a serviço de uma organização racional pra
o abastecimento de bens materiais à humanidade, sem dúvida, tem-se apresentado
sempre aos representantes do espírito do capitalismo como uma das mais
importantes finalidades de sua vida profissional.
Considerações
Finais
Foi
buscada uma breve análise da obra de Max Weber intitulada: a ética prostestante
e o espírito do capitalismo como forma de compreensão do católico e do
protestante no trato com o capitalismo. Sobretudo, também foi considerado, a
luz da teologia da prosperidade, o modo como cada um se relaciona com o
trabalho e os reflexos dessa relação no capitalismo.O propósito de vida da
maioria das pessoas é a busca incessante e incansável pelo acúmulo de dinheiro.
Sendo
justamente esse comportamento desenfreado o alimento do sistema econômico
denominado de capitalismo, a constante necessidade de aprimoramento dos
mecanismos de produção, a sobrevivência num mercado que cada vez mais se torna
altamente competitivo.Um dos meios técnicos usados pelo empregador moderno a
fim de assegurar a maior quantidade possível de trabalho por parte de seus
homens é o salário-tarefa.
Na
agricultura, por exemplo, a colheita é um caso onde é requerida a maior
quantidade possível de trabalho, pois, o tempo estando incerto, a diferença
entre os altos lucros e a grande perda pode depender da presteza com que pode
ser feito o serviço. Assim, o sistema de salário-tarefa é quase universal.
E, uma vez que o interesse do empregador no
apressamento da colheita aumenta como crescimento dos resultados e intensidade
do trabalho, tentaram-se, repetidas vezes, através da elevação dos
salários-tarefas aos trabalhadores, dando-lhes a oportunidade de ganhar
salários para eles, muito alto, interessá-los em aumentar a sua própria
eficiência. Dificuldades peculiares surgiram, porém, com uma frequência
surpreendente.
REFERÊNCIAS
WEBER, MAX. A ética protestante e o
espírito do capitalismo.
[1]A
autora é advogada. Participou de dois ciclos consecutivos (2013-2015) do PIBIC
– Programa de Iniciação Científica enquanto cursava Direito na Universidade
Católica Dom Bosco. Hoje é pesquisadora do Grupo de Estudos Filosofia do
Desenvolvimento ligado à Linha de Pesquisa Conversações do Projeto de Pesquisa
Estudos Críticos do Desenvolvimento. Cf. http://filosofiadodesenvolvimento.blogspot.com/
[2]Segundo a ‘Teologia da Prosperidade’, Deus concede riqueza e
bens materiais a quem lhe é fiel e paga o dízimo com generosidade; mas esta
concepção está mal fundamentada. Todos os católicos devem dar a sua
contribuição material à Igreja, para que ela possa prover suas necessidades
materiais; isso é ensinado pelo Catecismo, influenciando grandemente o
pensamento religioso por trás da teoria da prosperidade. Ao levar em
consideração que a parábola dos talentos visa tão somente a distribuição a
justa medida entre aquilo que foi semeado e a posterior colheita do
trabalhador, evidencia-se que a teoria da prosperidade ganha relevo pecuniário,
ainda que se fale da salvação da alma. É que a vida humana requer sacríficos, e
o trabalho, dentro dessa perspectiva é de suma importância porque dá o homem
dignidade; é por meio de seu labor diário que o ser humano adquire o pão de
cada dia. A maneira como é interpretada a teologia da prosperidade pelos
protestantes acaba desvirtuando o propósito de semear o talento (noutras
palavras, de trabalhar cada vez mais em prol de resultados, ainda que meramente
pecuniários) dando-lhe contorno de dízimo, oferta oferecida a Deus.
[3]Chamemos
de ação econômica “capitalista” aquela que se baseia na expectativa de lucro
através da utilização das oportunidades de troca, isto é, das possibilidades
(formalmente) pacíficas do lucro. A apropriação (formal e atualmente) segue
suas regras particulares de lucro através da troca. Onde a aquisição
capitalista é racionalmente buscada, a ação correspondente é ajustada para
cálculos em termos de capital. Isto significa que ela se adapta a uma
utilização sistemática de mercadorias ou recursos pessoais como meio de
aquisição, de tal forma que, ao término de um período econômico, o balanço da
empresa em termos monetários (ou, no caso de uma empresa que já atua há muito
tempo, a contabilização periódica dos bens financeiramente alienáveis)exceda ao
capital, isto é, ao valor estimado dos meios materiais de produção
utilizados para a aquisição na troca (WEBER,
p.9).[...] A filiação religiosa não é uma causa das condições econômicas, mas,
de certo modo, aparece como resultante delas. [...] A emancipação do
tradicionalismo econômico aparece indubitavelmente como um fator de apoio à
tendência de duvidar da santidade da tradição religiosa e de todas as
autoridades tradicionais. (WEBER, p.19).


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