RESENHA: DIVINA COMÉDIA

RESENHA BASEADA NA OBRA INTITULADA: DIVINA COMÉDIA – DANTE ALEGHIERI
Valéria Cristina Barbosa Taveira*[1]

A trilogia inicia-se com o narrador Dante - protagonista da história e autor do poema. O poema é uma narrativa alegórica, ou seja, o autor descreve situações que não devem ser interpretadas apenas pelo seu sentido literal. Portanto, o personagem Dante, o peregrino, pode também ter representação simbólica.
A história pode ser uma espécie de sonho (ele fala que foi o sono, um cochilo que o levou à selva). Estudiosos da obra de Dante dizem que o Dante da história simboliza qualquer ser humano que, como ele, se encontra perdido naquela selva escura. Na selva, o protagonista encontra-se perdido, ao deparar-se com uma pantera, um leão e uma loba.
Ao mencionar tais animais, o autor refere-se, segundo a tradutora Dorothy Sayers, uma representação simbólica da perdição no pecado, "onde a confusão é tão grande que a alma não se acha capaz de reencontrar o caminho certo". Uma vez perdido na selva escura, um homem só poderá escapar se, através do uso da razão do intelecto, descer de forma que veja o seu pecado não como um obstáculo externo (as feras), mas como vontade de caos e morte dentro de si (inferno).
A selva escura significa a ignorância humana e a dificuldade do homem em voltar-se ao divino.Não se pode compreender o divino pela razão.E os animais representam justamente as mais atrozes fraquezas humanas. Passada o encontro com as feras, Dante é salvo por Virgílio, do latim Virgilus, aquele que vigia, aludindo também a viagem que ambos iriam realizar.
O autor, nesse momento, presta homenagens ao poeta Virgílio, colocando como personagem principal da Divina Comédia um dos mais notáveis poetas romanos, (70 a. C. - 19 a. C.), autor do poema épico Eneida, um dos clássicos da literatura ocidental.
No canto II: Dante reencontra Casella, grande amigo florentino conhecido pelos seus doces cantos. Há três tentativas frustradas de abraçarem-se, todavia, não obtém êxito em virtude de suas almas incorpóreas. Interessante é que até Virgílio encanta-se pelo doce canto de Casella, e Catão os adverte ordenando que cesse a cantoria haja vista o absoluto desperdício de precioso tempo. Remetendo as negligências humanas em desperdiçar as oportunidades que são lhes oferecida.
As almas recém-chegadas tentam encontrar o rumo da salvação. A alma só tem poder de escolha enquanto viva, portanto, viva se decide pelo céu ou pelo inferno. O ante-inferno é chamado também de vestíbulo um estado onde a negação da escolha seja recompensada, uma vez que recusar a escolha é escolher a indecisão. Em vida nunca quiseram assumir compromissos, tomar decisões firmes ou fazer qualquer coisa definitiva, por achar que assim perderiam a oportunidade de fazer alguma outra coisa.
No Canto III: o terceiro canto é marcado pela tentativa de encontrar um modo para escalar o monte que conduz ao purgatório. Há vários pontos interessantes que merecem ser destacados: o primeiro é o fato de Dante olvidar da proteção divina que Virgílio lhe proporcionava, pois ao menor sinal de luz em que não visualizou a sombra de seu guia, temeu ser abandonado. Denotando a fragilidade humana frente aos obstáculos impostos. Corroboração de Pedro quando Jesus o chama para navegar em alto mar. É a covardia humana:
Outro aspecto interessante é o fato de Dante encontrar um antigo rei loiro, e de gentil aspecto. Este rei fora excomungado pela igreja católica e rogava que ao regresso a vida terrena, Dante avisasse sua querida filha que tornara-se rainha que ele, o rei, estava no caminho do purgatório e que quitara seus pecados porque se arrependera... enaltecendo o lindo perdão divino a todos aqueles que o rogam.
Constância que me viste aqui, pois pelas orações dos que estão lá no mundo, muito tempo se ganha aqui. Alude-se ao poder da oração e da devoção humana para com seu criador.
No Canto IV há Subida ao segundo terraço - Almas dos que se arrependeram tardiamente por preguiça. O canto IV é marcado pela súbita de Dante e Virgílio ao monte da purgação. Na medida em que vão subindo, alivia-se a jornada. Todavia, há uma alma irônica que parece o irmão da preguiça, mal consegue se mover, ao visualizar Dante remete que nada adianta prosseguir com a caminhada, o anjo que guarda a entrada do purgatório, não o deixará entrar porque deixará para arrepender-se no último tempo, todavia, se corações bondosos orassem, o tempo poderia ser encurtado.
Prosseguindo pelo ante-purgatório, defrontam-se os poetas, em sua segunda seção. com as almas dos que, tendo vivido em pecado, sofreram morte violenta; mas, no instante final, tocados pelo arrependimento, perdoaram aos que os feriram. E ouvem, ali, Jacó de Cassero, Bonconte de Montefeltro e Pia de Siena. Virgílio adverte Dante o porque ficará ali paralisado, aludindo que deixe estas vãs murmurações de lado.
Ao encontrar ali o anjo do céu, que viera para levar a alma de Bonconte, arrependido no último instante, o demônio parece não se conformar em que havia perdido aquela presa, que tinha como certa. Outro ponto fundamental do canto V é a recomendação de Virgílio para que não parem de caminhar enquanto as almas indagam Dante.
 No Canto VI:um pouco de política: prosseguindo os poetas pelo ante-purgatório, para trás a turba dos mortos pela violência, que ali os assediavam. O encontro deste com Virgílio, oferece a Dante, o ensejo de dirigir tremenda admoestação à Itália anárquica e dividida, e, nela, a Florença, seu berço.  Ao encontrar um notário cavalheiro, Dante advoga para Itália que estava completamente desunificada, a mercê de saqueadores inescrupulosos. Era tão crítica a situação da Itália que além de dividida e abandonada não somente as cidades faziam guerras umas às outras, mas até dentro de cada cidade os respectivos habitantes lutavam entre si. Muitos têm a justiça no coração; pensam antes de julgar, mas a tua gente abre a boca sem pensar.
No Canto VII: Os que se arrependeram tarde por causa de preocupações mundanas - O vale dos líderes. Prosseguem os poetas em sua marcha e, guiados por Sordelo, chegam a um vale ameno, onde floria belíssimo jardim. Viam-se ali as almas de príncipes e reis, que, absorvidos pelos prazeres e os cuidados mundanos, só no instante final, volveram o pensamento a Deus. Sordelo aponta Virgílio e Dante, então, algumas daquelas sombras ilustres.
No Canto VIII: o vale dos líderes (preocupados),a serpente - Os anjos. Preparam-se os poetas para passar a noite na vala florida. Assistem à descida de dois anjos, que vêm guardar o jardim contra as investidas da serpente. Entre as sombras presentes, Dante reconhece Nino Visconti; e ouve, de Conrado Malaspina, o velado Angúrio de seu próximo exílio.
Prosseguindo no Canto XVII: é o canto do Gérion – mitologia grega era um “monstro” que habitava a ilha de Ermínia, possuía três cabeças, seis braços e pernas e tinha o corpo de um guerreiro, com todas as armaduras e ferramentas de um guerreiro. Possuía um cão com duas cabeças chamado hortos, irmão de Cérbero o cão de três cabeças. Também tinha um rebanho de gado vermelho guardado por Órtos.
Gerião na peça italiana é a personificação da fraude pois uma das três cabeças parecia ser uma criatura dócil e ignóbil. Na obra dantesca, Gerião aparece como um monstro alado com o rosto de um homem honesto, as patas de um leão e o corpo de um wyvern, com um venenoso ferrão na ponta de sua cauda. Ele mora nas profundeza de um penhasco entre o sétimo e o oitavo círculos do inferno. Para o medo de Dante, os poetas montam em suas costas para que ele o leva a profundeza do inferno.
No Canto XVIII: é o canto dos espíritos dos simoníacos. é o oitavo círculo do inferno, denominado Malebolge, significando valas malditas, é a morada dos que pecam por fraude. São 10 valas em degraus decrescentes, interligadas por potes, in verbis:
Vala 1: Sedutores e rufiões. São açoitados por diabos que os exploram e controlam (Canto XVIII).
Vala 2: Aduladores. Sofrem submersos em um rio de fezes e esterco (Canto XVIII).
Vala 3: Simoníacos (traficantes de religião). Enterrados de cabeça para baixo, com os pés de fora em chamas (Canto XIX).
Vala 4: Adivinhos. Condenados a não olhar para frente, com a cabeça torcida para trás (Canto XX).
Vala 5: Corruptos (traficantes de justiça). Submersos em um rio de pez fervente e maltratados por diabos espertos (Canto XXI).
Vala 6: Hipócritas. Vestem capas de chumbo pesadíssimas e são obrigados a caminhar (Canto XXIII).
Vala 7: Ladrões. Se transformam, sendo consumidos por serpentes e outros répteis mutantes (Canto XXIV).
Vala 8: Maus conselheiros. Estão presos em uma chama que os envolve completamente (Canto XXVI).
Vala 9: Criadores de intrigas: São mutilados por um diabo e se mutilam o tempo todo (Canto XXVIII).
Vala 10: Falsários: Cobertos de sarnas que provocam coceiras, tomados pela insanidade ou vítimas de doenças degenerativas que os deformam e não lhes permite o movimento (Canto XXIX).
Percebe-se que há uma divisão dos castigos segundo os pecados cometidos. Na concepção de justa medida de Aristóteles, buscou-se a exata medida á infração pecaminosa cometida em vida. Os Gigantes: Estão dentro do Cócito mas suas cabeças e troncos são visíveis à distância.
 No Canto XX:vala dos impostores que dedicaram-se à arte divinatória. Eles tem os rostos e pescoços voltados para as costas, pelo que são obrigados a caminhar ao reverso. Já no Canto XXI:é a vala dos corruptos. Estão no quinto compartimento e são os trapaceiros que negociaram os cargos públicos ou roubaram aos seus amos. Eles estão mergulhados em piche fervendo.
No purgatório, o início do canto ocorre in verbis:“eu sou Virgílio; e se não pude um dia ao céu alçar-me foi por não ter fé e não por culpas graves.O purgatório é a via do paraíso:


No Canto XXII: são designados 10 demônios para escoltarem os poetas durante a travessia no inferno. A Hidra inspirou o dragão de sete cabeças e dez chifres mencionado no Apocalipse de João (Ap. 12:3-4 e 15-6). O dragão foi combatido por São Miguel e dois anjos. Quando perdura na mulher a chama do amor, quando não alimentada pela presença do amante.  São três as virtudes teologais: fé, esperança e caridade; quatro virtudes cardeais: justiça, temperança, fortaleza e prudência.
 A Serpente como personificação do demônio que tenta até as almas destinadas a salvação. Que a vontade divina que te trouxe até aqui, possa encontrar no teu ânimo aqueles requisitos indispensáveis para se chegar até a presença de Deus.
No canto IX:é o primeiro dos três sonhos que Dante terá nas três noites que passará no purgatório. Ele sonha que está sendo levado para o alto da montanha por uma águia, que atravessa o fogo. Dante visualiza-se sonhando com uma águia de penas de ouro sobrevoando na montanha. Na verdade era Santa Lúcia conduzindo os poetas a porta do purgatório. Com um portão que era necessário atravessar, jaz um ser angélico. Havia três degraus com cores diversas: o primeiro era branco mármore e espelhava o corpo de Dante. Simbolizando o sacramento da penitência.
 O segundo degrau era símil a uma rude pedra, áspera e fendida. O terceiro degrau era vermelho como o sangue, nele havia o ser angélico cuja face resplandecia como à luz de um diamante. O mestre pedia humildemente para que o anjo abrisse a porta do purgatório. Sem que Dante dissesse nada, o anjo desenhou sobre sua testa sete feridas em forma de P e disse: entrando aqui não deixaste de lavar essas feridas, simbolizando a remissão dos pecados capitais. Pegando duas chave os advertiu que se uma das chaves falhasse inútil seria a entrada do purgatório. Abrindo a porta disse-lhe que se olhassem para trás retornaria ao início do caminho. Os três degraus simbolizam as três partes da penitência.
O primeiro degrau, que é branco e no qual se vê o próprio reflexo, representa a confissão, o ato de reconhecer em si o pecado cometido. O segundo, escuro, áspero e rachado simboliza o arrependimento pelo ato pecaminoso ou contrição. O terceiro degrau, vermelho flamejante da cor do sangue de Cristo, representa a purificação através da absolvição da dívida do pecador
Simbolizando a necessidade de seguir em frente na remissão dos pecados. Ao entrar um doce canto foi introduzido.
Canto X:o purgatório é composto por sete giros, simbolizando os sete pecados capitais, transportando a porta, os poetas se alçam ao primeiro giro ou terraço do purgatório. É uma faixa estreita medindo cerca de três vez o centímetro do corpo humano. Os poetas encontraram os soberbos e orgulhosos. No décimo canto foi identificado a penitência do pecado do orgulho cuja virtude correspondente é a humildade.
A porta pela qual passavam era tão estreita que cabiam três homens juntos, simbolizando a dificuldade do caminho da redenção. As paredes do penhasco era de um branco de mármore, cuja paredes jazia esculturas: a chegada do anjo Gabriel a Maria anunciando a doce paz trazida por Cristo.A segunda escultura representa a humildade do rei Davi diante do povo, durante o transporte da Arca do Senhor a Jerusalém. Quando a Arca chegou à cidade, Mical, esposa de Davi, observou o rei dançando alegremente no meio do povo, e sentiu desprezo por ele. Disse-lhe "Quão honrado foi o Rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como um vadio qualquer que se tira a roupa sem pudor." (2 Sam 6:20) Davi respondeu "Ainda mais do que isto me envilecerei, e me humilharei aos meus olhos. Quanto às servas de quem falaste, delas serei honrado." E Mical não teve filhos até o dia de sua morte.
Os orgulhosos habitam o primeiro dos sete círculos do purgatório principal. Na explicação que será dada por Virgílio, mais adiante, o orgulho é o primeiro dos três pecados capitais que são resultantes do amor pervertido, direcionado contra o próximo. Sendo o orgulho a raiz de todo pecado, este círculo é o que mais se distancia de Deus, pois o orgulhoso deseja ter todo o mundo voltado para si, tentando, assim, ocupar o lugar de Deus.
No Canto XI:Com os soberbos e os orgulhosos, no primeiro terraço do purgatório, os poetas ouvem Humberto Aldobrandesco, sem, todavia, poderem identifica-lo em meio da turba curvada ao peso das imensas pedras. Neste primeiro círculo há uma adaptação da oração do padre nosso, sendo entoada uma prece pelas almas dos soberbos, carregados com os imensos fardos, no primeiro terraço do purgatório: “que a carga eu leve agora é conveniente, até que Deus se dê por satisfeito, fazendo, morto, o que não fiz, vivente”. O fardo de pedra aos ombros dos soberbos era, sem dúvida, uma lição de humildade. Humberto praticava essa lição por não ter feito em vida.
Quão transitório e vã é a glória humana! Cujo brilho nunca perdura! “pois o rumo mundano, festejado um sopro é só do vento balouçante, mudando o nome por mudar o lado”. pois a fama não é mais que um sopro dos ventos volúveis e inconstantes, que favorecem ora a este ora àquele, segundo batem daqui ou dali.
São personagens do orgulho: 1- Lúcifer; 2- Briareu mitologia grega cem braços e cinquenta cabeças símbolo da soberba arquitetada contra o olimpo; 3- Nemrod gênese, descendente de Nóe que construíra a escada rumo aos céus; 4- Niobe esposa do rei de Tebas por ser mais de sete filhos e sete filhas desdenhou o povo que adorava a deusa Latona, por ter somente Júpiter e Apolo como filhos. 5- Saulo (bíblia) que preferiu repetidas vezes seguir a sua própria consciência em vez das ordens do Senhor. 6- Aracne (aranha) que na mitologia grega orgulhava-se por seus cozeres;
 7-Alcmeon, filho de Anfiarau (veja Inferno, canto XX), matou a sua mãe Erífile que traiu o seu pai em troca de jóias. A história é contada na Tebaida de Estácio (veja nota 21.1). Anfiarau, sendo um vidente, previu que iria morrer em batalha caso fosse à guerra de Tebas. Para evitar a convocação, ele se escondeu. Indagada por seu irmão, o rei Adrasto, Erífile revelou o esconderijo do marido aceitando um colar de ouro e diamantes como suborno. Anfiarau, ao partir, pediu que seu filho Alcmeon matasse a mãe logo que soubesse de sua morte; 8- Senaqueribe, rei da Assíria Tendo tomado todas as cidades fortificadas da Judéia.
Senaqueribe assediou Jerusalém. Certo que seria vitorioso, desafiou Ezequiel, rei da Judéia, a mostrar o poder de seu Deus. Durante a noite, um anjo matou os 185 mil soldados assírios. Sem exército, o rei deixou o acampamento e voltou a Nínive. Enquanto orava no templo foi morto por seus dois filhos, inconformados com a derrota. 9- Ciro, rei da Pérsia. 10- Tróia. 11. Holeferme, capitão do exército de Nabicodonosos, rei dos assírios, desprezou o conselho de seu superior confiando em seu poderio de cavalaria. Bem-aventurados são os pobres de espírito.
O Anjo da Humildade: Na saída de cada cornija há um anjo, que apaga um dos "P" da testa de Dante, e pronuncia uma benção tirada do Sermão da Montanha (Mateus 5). Ao sair da cornija do orgulho, Dante ouve "Bem-aventurados são os pobres em espírito" (Beati pauperesspiritu, em latim, no original) (Mateus 5:3), que com a asa, sara a ferida na sua testa e o encaminha ao círculo seguinte.
Interessante:com a retirada de cada P de pecado, é como se a alma ficasse leva e subisse ou retornasse a Deus. Já no Canto XIV:é o canto dos invejosos, que colocam seus olho sobre os bens materiais alheios ou dons alheios. Alusão a raposa como animal astuto que não se deixa cair em armadilhas.
Canto XV:felizes os que perdoam. Se o amor de Deus fizesse com que os homens voltassem para o céu os seus desejos, ficariam eles livres da inveja: pois que em si viu a dureza do mal da inveja, bem se compreende que ora lhe aponte a falsa natureza. Quando a humana vontade ansiosa tende às coisas que lhe veda a posse alheia, a inveja a senhoreia, e, certo, a ofende. Mas se o ínsito amor da suma ideia para o céu a impelisse, tal vontade livre do mal se vira, que a salteia. Posto que à medida que mais almas se reúnem no céu, usufruindo os dons divinos, mais aumenta sua beatitude. A caridade é, assim, fonte de glória e prazer, ao contrário da inveja, que é de sofrimento.
As almas transfiguradas pela caridade são como espelho em que Deus reflete a sua luz.E ali a vista nos tolheu, e mais o ar puro: e o fumo a se propagar por toda a parte, ali, àquela altura do terceiro terraço (e dentro padeciam os iracundos), não só lhes tolheu completamente a visão, como perverteu o ambiente, tornando o ar irrespirável.  No Canto XVI: vós, os viventes, com simplicidade, julgais estar aos céus tudo imputado, por força de fatal necessidade. Mas, com isto se vira erradicado o livre-arbítrio, e senso não faria haver-se o mal punido e o bem premiado.
“Aos céus os vossos atos inicia: embora não se possa negar o influxo dos céus, ou dos astros, sobre os homens (no sentido de que nossa própria inclinação e nossas reações físicas determinam muito de nossos atos), ainda assim a cada um foi dada a inteligência capaz de discernir entre o bem e o mal – livre-arbítrio. Por isso, sujeitando-se a vontade divina, os homens encontra-se livres. E, assim, a causa da corrupção e transvio do mundo só pode estar nos próprios homens, como resultante de suas ações e de suas vontades.
No Canto XVII:procede em relação a si mesmo: pois, se aspira a alguma coisa, procura obtê-la imediatamente, sem aguardar que alguém o mova a fazê-lo. Quem, vendo e sentindo a necessidade de outrem, fica esperando o pedido de socorro, para agir, já demonstra com isso sua recusa à ajuda.Nos três primeiros terraços são punidos os respectivos pecados: os primeiros só admitem a própria glória, mesmo que isto signifique a ruína do próximo (orgulhosos); depois há os que preocupam-se com a possibilidade do outro crescer e acumular mais fama e poder que eles (invejosos); finalmente, existem aqueles que, por injúria sofrida, explodem em ira, e só pensam em revidar o mal causado (iracundos).
Já o Canto XVIII:Teoria do amor natural e do amor do ânimo ou da vontade. Como atributos da alma e fundamento das boas e das más ações. O espírito ao amor vocacionado: por uma disposição ínsita, que o criador lhe atribui, o espírito é naturalmente inclinado ao amor, e por isso tende instintivamente a tudo que lhe desperta prazer. O quarto terraço purgavam as almas dos negligentes e omissos na prática do bem e da virtude.
Pune-se os preguiçosos, neste ciclo suas penam são correrem sem parar. A preguiça é a indiferença. Vai muito além do simples não fazer nada. Seus opostos são o zelo, a ação, o esforço, a iniciativa e a persistência. A passagem por esta cornija é rápida pois as almas não têm tempo a perder.
No Canto XIX:O segundo sonho de Dante - A sereia - Subida à quinta cornija - Os avarentos - papa Adriano V. o segundo sonho de Dante é com uma mulher – personificação da tentação que induz o homem ao gozo pecaminoso dos prazeres materiais – avareza, gula e luxúria, apresentada em forma de sedutora sereia. E apareceu outra mulher, honesta e santa, rasgando o ventre da sereia e seu horror cheiro despertou Dante.
Alegoria que Dante faz que a virtude vence a tentação. A avareza é o pecado da cobiça pelos bens da terra.
Bens aventurados os puros de coração. Alusão ao pecado da luxúria. Aqui enfrenta-se a dor, mas não o fim.Ainda que tu, em meio ao fogo aceso, ficasse por dez séculos, em pranto, de um só cabelo não seria leso.
Como Dante era romântico, na última passagem... deveria transpassar um barreira de fogo. Virgílio tenta encorajá-lo relembrando de todos os obstáculos enfrentados no inferno. Mas Dante só toma “coragem” de atravessar o fogo, depois de saber que aquele é o único obstáculo que o separa de Beatriz. O paraíso fica localizado em cima das montanhas. Dante tem o terceiro sonho: “em sonho uma mulher me aparecia, indo no campo, flores a colher; e cantava, e seu canto assim dizia: A quantos me desejam conhecer digo que sou a Lia, e para mim são as grinaldas que me vês tecer. Por amar a beleza eu me orno assim.
Dispões de livre e íntegra vontade, e só com ela deves prosseguir. No paraíso (último volume da triologia de Dante). Ocorre o regozijo da alma humana.
É importante mencionar que o paraíso – último livro da Divina Comédia de Dante – detém conhecimentos astronômicos, isto é, considera o estudo e a compreensão dos movimentos dos astros. Foi utilizado o sistema solar de Ptolomeu como embasamento científico do aludido livro. Logo, no Canto II: o poeta chega à lua, quer dizer, ao primeiro céu, que é dentre as noves esferas concêntricas do sistema de Ptolomeu, a mais próxima da terra e mais distante do Empíreo.
O tema que agora proponho é como um mar desconhecido, que ninguém se atreveu antes a percorrer.  Dante pede ajuda a Minerva e Apolo, deus da sabedoria e da poesia, para que demonstram o rumo a seguir. Um pouco de astrologia: constelações ajudam-nos a localizar determinados eventos ou objetos celestes no céu. São grupos de estrelas que vistas das terras parecem estar próxima uma das outras e que formam uma determinada figura no céu.  Almagesto – astronomia.
“Inata sede” – a sede, não ocasionalmente despertada, mas ínsita na alma, como um de seus atributos, de se elevar ao seu criador. De acordo com o sistema ptolomaico, há nove céus. A lua é o primeiro e o mais próximo da terra.  Ali, encontravam-se as almas dos que não puderam manter inteiramente o voto religioso.
 Se é certo que erra o juízo dos humanos, condicionado pelos sentidos vãos a que se aferra. Princípio astrológico de estrelas exercem influência sobre a terra. Sob o empíreo, o nono céu, sede imóvel da divindade, primo mobile, que é fundamento, o princípio motor de todas as coisas que se contêm no seu âmbito. NoCANTO III:ao divisar, ali, no primeiro céu, ou céu lunar, algo semelhante a figuras vagas e imprecisas.
Somos todos deuses e heróis de nossas próprias histórias. Mitologia de Narciso: embora muito belo, Narciso preferia viver só, pois não havia encontrado ninguém que julgasse merecer seu amor. Ao beber água de uma fonte límpida de águas cristalinas, ao inclinar-se, narciso viu sua própria imagem refletida e encantou-se com sua visão. Fascinado, Narciso ficou a contemplar o lindo rosto, com aqueles belos olhos e a beleza dos lábios, apaixonou-se pela imagem sem saber que era a sua própria imagem refletida.
 Olha que interessante: nossa caridade nos impõe a satisfazer a todo e legítimo desejo, pois é idêntica à própria caridade divina, que quer que todos os bem-aventurados participem e desfrutem igualmente de seus dons.  A estrutura do paraíso de dantesco refere-se ao sistema ptolomaico dos noves céus concêntricos, girando uniformente à roda da terra (o centro).  A essência da caridade é justamente ser ela emanada da vontade divina.
Cada céu recebe a quantidade de luz divina adequada à sua capacidade de recebê-la (justa medida).  Da mesma forma, cada alma individual recebe a graça divina de acordo com sua capacidade individual e assim, todas as almas do paraíso estão satisfeitas, independentemente de onde estiverem.
É engraçado que não confias no que vês diante dos teus próprios olhos, e te viras para procurar no nada.
Olha que interessante: nossa vontade é satisfeita pela virtude do amor, que nos faz querer nada somente o que já temos. Exprime felicidade pelo aquilo que tem. Ideia de justiça.
Canto IV:  em ti observo, o rigor da dúvida sem fim que tortura-te. E não consegues nem sequer expor. Na verdade Dante não compreendia porque a invencível opressão exercida de fora sobre a vontade genuína pudesse-lhes apoucar o merecimento aos olhos de Deus. Beatriz remete a Platão para explicar o sucedido.  A intelecção ocorre em nós pela ação do pensamento científico e da opinião alheia somos persuadidos. A intelecção vem acompanhada de uma demonstração verossímil.
A doutrina platônica da volta das almas às estrelas parecia desmentida pelo que se observava no primeiro céu. Os espíritos ali vistos eram dos que haviam rompido o voto religioso e não dos que tiveram o seu nascimento influído por determinada estrela.  Sendo capaz o humano entendimento de apreender a verdade nisto infusa, logo a terás, por teu contentamento.  Quanta sabedoria nas palavras de Beatriz! Se força existe que prive a vontade... Mas nem só por isso se escusa a vontade, porque, ao desaparecer a opressão, ela poderia exercer-se novamente em toda a sua plenitude.
Quem aceita a opressão nela consente.  Ao pé da verdade, a dúvida desponta constantemente.  A dúvida suscita o estudo e a crítica, e, pois, através dela, chega-se à verdade.  No Canto V:ainda no primeiro céu, ou céu da lua. Beatriz responde a pergunta de Dante ( se poderia haver compensação do voto com obras meritórias). Beatriz explica-lhe a natureza do voto religioso e discorre sobre o problema de sua comutação ou compensação.
O dom maior de Deus, o que mais reflete-lhe a faculdade, e o que de seu amor mais está perto, foi do querer a inata  liberdade, à criatura outorgada inteligente e a ela tão só exclusividade.  Podes disso aferir seguramente do voto o alto valor, quando de fato Deus, como quem o faz, nele consente.  E quem, ante o Senhor, firma tal pacto, renuncia com isto à volição por espontâneo e irretratável ato. Como lhe oferecer compensação?
A liberdade do querer é estimada como o mais alto dos dons outorgados por Deus, na obra da criação; e foi reservado, tão somente às criaturas racionais, os homens.  A circunstância de poder o homem autodeterminar-se já revela o valor do voto religioso, quando assumido livremente e constituído sobre matéria que possa merecer aprovação divina. O engajamento no voto implica em eventual renúncia à própria vontade, não podendo mais exercê-laseu arbítrio naquilo que constitua matéria do compromisso ou a ela esteja ligada.
Duas são as coisas que distinguem na essência do voto: a) seu objeto – o dom a ele inerente, o livre arbítrionele manifestado; b) a plena anuência dada por Deus, quando assente na promessa que lhe foi feita. Entrada no segundo céu – mercúrio – onde divisaram as almas dos que, em vida, foram ativos e diligentes na prática das virtudes, embora o tivessem feito com o intuito de conquistar a glória e a fama.
No Canto VI:no segundo céu, ou céu do mercúrio, a alma do imperador Justiniano fala a Dante, que ali encontra-se os espíritos dos que, na terra, praticaram o bem, mas visando à conquista da própria fama. As almas nesta estrela, encontra-se numerosas, dos que em vida foram diligentes e virtuosos, mas visaram o próprio proveito e glória pessoal.Canto VII:Beatriz fala a Dante o procedimento da justiça divina para a redenção dos homens, falando-lhe da imortalidade da alma e da ressurreição final.
Não compreendes, decerto, ao meu aviso. A vingança tomada por Deus, com o sacrifício de Cristo, do pecado de Adão e de Eva, sendo necessariamente um ato santo e misericordioso, pudesse, por sua vez, ser vingada ou punida pelos homens, como o fizera o Imperador Tito, destruindo Jerusalém. O pai que não nasceu, foi Adão, criado direta e inicialmente por Deus; e porque não quis submeter sua vontade a vontade divina, viu-se expulso do paraíso, legando à sua descendência a mancha do pecado original. O santo verbo, Cristo, que se fez homem para remir a humanidade, repondo-a na senda da salvação.
Mas sua mente sinto tolhida, de degrau em degrau, numa ilusão que mais que tudo queres ver solvida. No Canto VIII:Dante e Beatriz ascendem ao terceiro céu, o céu de Vênus, onde avistam as almas dos que, sensíveis ao amor físico, lograram obter, contudo, a salvação. Revela-se ao poeta o espírito de seu contemporâneo e amigo Carlos Martel, que lhe fala sobre a não hereditariedade do caráter das pessoas e sobre eventual desrespeito pelos homens, de suas naturais inclinações.  No paganismo, oferecia verdadeiro culto a Vênus a Deusa do amor carnal e efêmero, estendendo tal referência a sua mãe, Dione, e a seu filho cupido.  Ao amor foi atribuída a força poderosa que faz com que os humanos sintam-se atraídos. Notando Vênus que Eros (Cupido) não crescia e permanecia sempre menino, perguntou o motivo a Têmis. A resposta foi que o menino cresceria quando tivesse um companheiro que o amasse. Vênus deu-lhe, então, por amigo Anteros (o amor partilhado). Quando estão juntos, Cupido cresce, mas volta a ser menino quando Anteros o deixa. É uma alegoria cujo sentido é que o amor necessita ser correspondido para desenvolver-se.
Os serafins são os anjos da mais alta hierarquia, sediados no empíreo, ou primo mobile (nono e último céu). Canto X: o céu do SOL, o poeta divisa as almas dos teólogos, envoltos em luz mais viva que a da própria estrela. Encontra Tomás de Aquino. Deus, o pai, volvido ao filho, através do espírito santo, criou com tal perfeição as coisas visíveis e invisíveis, são as três pessoas da santíssima trindade.
Rende graças a Deus onipotente, que ao esplendor deste lugar te ergueu bondosamente. Jamais um coração com tal ardor de devoção e de agradecimento pulsou, por se render ao seu Criador. Um belo exemplo de uma viúva cuja extrema pobreza não lhe impediu de oferecer tudo o que possuía: duas moedas, ao serviço do divino. Os serafins são na ordem angélica, os seres da caridade e do amor. Os querubins simbolizavam a luz da sabedoria.
Deste modo, termina-se a análise literária da obra de Dante Alighieri. O autor florentino buscou traçar a trajetória humana em ascensão ao divino. Buscando o encontro com Deus e todos os obstáculos neste caminho foram vencidos. Demonstrando a força que a vontade humana detém quando almeja encontrar o divino. 
REFERÊNCIAS:
ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia.
ALIGHIERI, Dante. Resenha Disponível em: <http://www.stelle.com.br/pt/inferno/canto_28.html> Acessado em: JUL/2016.
MARO, PubliusVirgilus. Biografia. Disponível em:<https://www.ebiografia.com/virgilio/>. Acessado em: 23/05/2017 23:21:02
MUNDO DOS FILÓSOFOS. Disponível em:<http://www.mundodosfilosofos.com.br/cupido.htm#ixzz4WzhckuHf>. Acessado em NOV/2016



[1]*Graduada em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco. Advogada atuante na área cível e pesquisadora do Grupo de Estudo Filosofia do Desenvolvimento da UCDB
E-mail:taveiravaleria@gmail.com

Comentários

Postagens mais visitadas